Aos Curumins do Brasil. Curumins danados, travessos. Curumins aqui de casa, andando pelos muros. Aos que correm pelo mato, pela areia. Sobem em árvores, remam, buscam peixe. Pés rachados.
Aos meninos e meninas que ganham seu pão. Curumim, minha alma.
oOo
Lembrar João Guimarães Rosa e o livro inspirado que fez para sua neta.
Índice
A barba de meu filho é singular
De cada qual é singular. Se perfilam numa linha os rostos quadrados de homens. Todos esses braços feitos como armas fortes, são eles, sim! aqueles meninos que chamei para o banho. Hoje desbravam, cozinham, embalam bebês, trabalham muito. Valem cada gota de suor sobre os berços de seus filhos.
Unicórnio
Vou te dar um cavalo e um touro forte. Um pé de amora que já plantei para você e uma horta cheia de cheiros plantas, sabores. Tudo que você apontar eu arranjo para você - um gato, um planeta, um doce, as tintas, brinquedos, a cachoeira, o cachorro, o circo, a piscina, o colo. Vamos nos divertir.
@bentodias
Nascidos
Vi tantos bebês nascerem. Crescerem à minha volta. Percebi que nem todos são aqueles joelhos que a gente tende a dizer que são. Uns já são briguentos, esperneiam, tem muitas cólicas. Outros dormem empaxados, mamam lentamente, fazem cocozão. Existem os bebês que a gente se embriaga, fica com saudades já na hora de ir embora. Esses olham bem dentro de você como amantes. Fixam o olho opaco, piscam. Fica a certeza que são seus parceiros de vida. Eles vêm de antes, de um lugar da plenitude e no espaço de sua finitude. Esses são os netos.
@bentodias
Praia
Léo e João Francisco engatinham pela casa. Ocupam o mesmo quadrado invisível cercado de vó, mães e Marlene. Faço todos os dias as papinhas variadas. Eu mesma descasco, tempero e vigio.
Depois, meus olhos cheios de mar observam como esses meus queridos abrem as bocas pequenas como peixes - e saboreiam tudo.
Verão
Toda família confinada no verão traz um hospício sereno no formato. Flutua uma intenção, flutua uma paixão, flutuam as diferenças, os ciúmes, flutuam as bordas do vapor da água no fogão, como a água refletida lá da praia. Beijamos com mais intensidade, brigamos com mais ternura, nos ajustamos nas cadeias para nos isolarmos juntando mais nossos corpos. Fazemos comida, a casa não pára e sou eu um general.
A mim foi dada a missão e vou cumprindo como se abrisse uma picada sertão afora de machado e facão. E não me dobro, ponho a cambada nos eixos, rimos, rimos, bebemos e bebemos, e vem as histórias de verão. A cada fim de dia precioso de sol acho que vou morrer como me fosse dado um último dia de prazer.
Nomes aos bois
Acho-os no dicionário tupy
Nem sempre combinam com as personalidades.
Forjam um jeito de pássaro, de medida,
de pedra, de tristeza.
Sarandí Curumin
Tainá Sassy
Tamboril
Sacubaré
Angry Birds
Vóó, tô chorando porque quebrei sem querer meu brinquedo, vó, do Angry Birds, vó. Num chora, querido, quer jantar? Quero, mas com bife, buáá. Tá bom, vou descongelar o bife agora - mas num chora.
Vó, nada me faz feliz, nada, vó...
(vinte dias de vida do primo Léo, segundo neto da vovó, e cinco dias antes de nascer Juco, seu irmão)
Dormindo
Nada dá mais paz que um menino dormindo solto, crescido, moleque, esperto, terrível. Queria apenas descrever como é bonito esse menino. Como a gente é tomada de ternura. Mas a palavra, na verdade, se esvazia. Acho que deveria existir uma palavra para isto. Não acho, não tem. É como ver arte, ouvir música, estar envolvida inteiramente com um outro. Quase paixão, quase memória. É eletromagnético. Ternura que não tem nome exato.
@reginadias
Zuzu
João Francisco almoçou comigo. Ele é um bebê de um ano e seis meses de porte de alto. Ele não verga como um bebê. Ele já é reto, já é alto e não é o estereótipo de fofinho. Você olha para ele, ele custa a sorrir e parece falar ídiche. Só quando a gente ameaça !vou te pegar! ele vira aquele bebê molenga, um carioca que passa dando fina na testa pelas beiradas e quinas. Hoje comia uma colherada e aguardava calmo que eu desse a minha. Única palavra dita uma vez ou outra em minutos: vôu-vóuu. João Francisco é diferente de todos os bebês que vi pela vida de várias famílias de amigos, primos de meus filhos. João é tímido e circunspecto, brinca com detalhes que lhe caem nas mãos, e se estrutura para enfrentar um irmão cinco anos mais velho, dono de si, brilhante menino.
É, Zuzu, a vida é uma guerra. E estou aqui como seu Sancho para correr entre moinhos.
Sono-só
Vele seu filho dormindo, meu filho, porque ele é o embrião de tempos outros e longínquos, onde depositei um futuro imenso. Olhe seus olhos quietos buscando no sonho o estreito laço de nossa união primária. Ventos novos virão. Como virão os abacates que planto na Mantiqueira para que fiquem suas sementes. Virão as declarações de Independência, virão Marianas, Blade Runners 2066. Contemple calmamente.
Ele dorme um sono-só.
Gargalhadas
João mora bem pertinho e escapa para cá vez ou outra quando vêm buscar o Bernardo. Léo começa a dar muitas gargalhadas e nós, bobos em volta, gargalhamos junto. Engraçado como a gargalhada de um bebê de seis meses é capaz de fazer gargalhar a casa toda. Hoje ele dormiu no meu colo daquele jeito que o mundo em volta não faz mais a menor diferença. Seus olhos fixam nos meus até que se fecharam devagarinho. Algo além disso tem importância?
@desenho bentodias
Se eu for capaz de te amar não porque é filho de meu filho, mas porque é doce e calmo
Se eu for capaz de ver em você todas as pessoas boas em redor do campo verde aberto em mim pela poesia
Se for eu capaz de te atar nos braços me vendo cantar enquanto cai lá fora uma chuva forte
Se eu te der maçã pelos lábios famintos e por sua boca sairem canções e pétalas
Meu bem chegado, meu amigo pequeno, tudo isso vai se chamar amor.
Tim!
Em meia hora havíamos comprado a bateria nova. Mais robusta, com cara de menino. Agora tem timbre, chave para apertar de verdade e três tambores afinados. O prato é prato de bateria – não vai voar mais na parede na hora que precisar dar um tim! Nele. O banco? Redondinho, estofado, de pezinho! Não vai virar mais, Bê. O Douglas da Casa do Baterista foi legal, bateu aquele cumprimento rasta, o cabelo é rasta, será um bom amigo. Volte da escola correndo. A batera chega à tarde.
Plante
No canto da praça. Plante uma mudinha de fruta. Limão, jabuticaba, manga. Pitanga para os passarinhos. Plante uma fruta e frutos virão. Frutos e frutas de cor forte para atraí-los.
Cambucá Amora branca Ananás Cambuí Grumixama Goiaba Araçá Pitanga Sapoti Brejaúba Jerivá Macauba Gabiroba Jaracatiá Araucarias Butiás Cambuci e mais das mil frutas brasileiras.
Plante
Gab
Gabriel veio apressado, mas chegou grande, comprido, carimbo do irmão. É como se eu tomasse uma golada de Farrista, dois bocados de Gin Tônica, três Blood Mary, dois Barolo e quatro Cavas à beira do Mediterrâneo. É estar com Amóz Oz, Adélia Prado, Beatles, Tom e Vinicius. Viajar de Harley, editar infinitos filmes. Algo nos conta intimamente sobre nossa egoísta eternidade. A gente derrete num lugar da alma que só é tocada quando eles chegam.
@brunodias
Apitos de pássaros
Vofó deu mesmo a caixa de apitos de pássaros de madeira. Num sei ainda o que fazer. Sei que apito, apito, e não vejo nada mudar. Só o som. Mas descobri um fininho que é o pato - por causa da música. Mas ele não toca a música, só apita. Não vejo nenhum pato, nunca vi. Peguei a minha bateria e levei até o lugar que a vofó tava apitando, e dei um jeito de acompanhar. Dou muita risada e às vezes olho pra ela e digo tiamo.
Astronauta
Convite para ver o nenê boiando no líquido. Manchas incertas. Algo como um barco de papel no lago, como dois braços abertos, vão e voltam, algumas riscas de giz, preto e branco. É sinfônico vê-lo. Meu astronauta. O filho do filho é a coroação. É também um desafio quando você vai se aquietar. Um deslumbramento sonoro que a vida presenteia. Você ganha uma música só sua, um silêncio magnético, aventura inexplicável, enquanto tudo o mais se encolhe. Meus olhos precisam de mais colírio e os seus estão boiando à espreita da luz.
Cadernos
Nos damos de presente cadernos sem pauta, os preferidos. Sempre gostei da liberdade da agenda sem dia de semana e sem linha alguma. Uma representação de liberdade que talvez só usufrua dentro, por dentro. Libertária. Presenteio você com o caderno sem pauta para que a sua expressão venha em linhas de desenho, desenhos que não param, diários. Ocultos. Abarrotando as gavetas, caixas de infância, esboços nos cadernos de escola, nas últimas folhas dos livros que deixou de ler. Os grafites pelos muros das casas que deixamos, desenhos que certamente foram cobertos pelas tintas. Um dia terei queimado todas as agendas de rabiscos inúteis, mas os desenhos — seus desenhos — estarão eternizados.
Silvio
Sirvio-pra-tudo foi o apelido que ele ganhou. Tanto levava o Tonico para pescar e acampar pelas beiras aqui, com direito a grelha para assar o peixinho na hora ou assar um pedaço de carne salgada, quanto para liderar uma apresentação de um premiado campeão na pista. Pedreiro, vaqueiro, Silvio foi durante muitos anos o anjo da guarda do meu filho na fazenda nos finais de semana. Vi fazer partos enfiando as mãos na estreita abertura de vacas primíparas e retirar de lá suavemente os bezerros grandões. Vi brincar e rir de tudo - fazendo rir qualquer carranca. Começou como ajudante de pedreiro erguendo minha casa durante calmos, longos, quentes e frios quatro anos. Tomamos hoje um café na varanda enquanto anoitecia. Disse a ele que meus cabelos estão todos brancos, mas que ele não tem essa vantagem de poder pintar os dele. Rimos muito. Quando pergunta do Tonico seus olhos marejam e longe, sei, marejam os do menino.
Fazenda
Derrubada a sede da Fazenda do Divino, a primeira casinha do primeiro quinhão de terra comprado há trinta anos. Havia a bica correndo ao lado da casa debaixo da nossa janela, uma mangueira de frutos pequenos que se come arrancando a casca com os dentes. Os meninos ficavam com os braços lavados de caldo de manga e barro vermelho. No chuveiro de serpentina dávamos banho numa bacia grande revezando quem esfregava e quem secava - havia mais gente ajudando porque eram muitos. Dormiam com o pôr-do-sol e acordavam com as galinhas. Sem luz durante anos, nossas férias traziam essa benção do sono dos meninos. Depois, nós quatro abríamos as cadeiras de praia no meio do cerrado ouvindo as fitas K7 rodando baixinho o Clube da Esquina. Conversávamos sem ver os rostos, apenas com o olhar nas estrelas, satélites, meteoros e outras coisinhas do céu. Um grande silêncio nos unia. Adeus casinha brilhante. Sirva você e suas telhas, janelas e esteios à outras pessoas de sorte como nós por tantos amigos e filhos. E por confiarmos na vida.
Temperos
Temperos usuais, domingos usuais. Nossos encantos. Uns tomam mais sorvete, não compraram limão, esfriou a torta. Um tá lá caído dormiu mal, sabe lá o que bebeu ou beliscou. Amoleceu. Falta um para controlar a criançada que vai lentamente espalhando um fio fino de açúcar pela casa. Tem nada não, bom eles aqui, de onde a gente vê pelo cocuruto da cabeça - trama danada de gens. Somos tribos cheias de gostos, de beijos, saudades de você Bê - diz aquele que acabou de aprender a andar. Se enrolam no sofá clarinho, babam os restos de sorvete nas almofadas também claras. Trazem brinquedos para a sala, tropeçamos. Correm, se agitam porque têm muitos segredos comigo. Comer bala de goma mole atrás da geladeira. Nora nenhuma vê. Uma tempestade tropical varou a casa. Se levantam todos rumo ao banho, fazer lição. Chega o elevador, se enlatam lá dentro e nem sei mais quem me deu ciao. Giro a chave. A vida é a esplendida chegada deles, coroada com o adeus desleixado.
Mãe, qquuueerroooo danone.
Não, Bernardo, senão você não almoça.
Mas eu não quero almoçar! Num queruuuuu...
Você já viu alguma criança não almoçar, Bernardo ?
Já.
Já? Quem?
As crianças pobres.
Andar em círculos
Almoçando Bernardo perguntou sobre um detalhe do quadro à sua frente. Expliquei que o pintor reproduziu no meio do desenho, sua paleta de cores. Que é isso, vó? Fui até o quarto buscar a paleta que era do pai dele, Bento. Seu pai misturava aqui as tintas e pintava. Nossa! E ele nem pinta mais, vó. Tarde, achei no meio do armário de brinquedos e desenhos uma caixa de pastel que comprei em Amsterdam para meu namorado que desenhava e pintava. Avô de Bernardo. Sentei na mesa com o papel sulfite e fui testando se aqueles pastéis usados ainda serviam. Risquei a última mania - rosas que saem facilmente. O dia de andar em círculos se fechou com uma história íntima, repleta de significados que não vou decifrar. São coincidências.
Minas
@desenho bento dias
Vó, Minas é tão bonito, essa estrada tá tão bonita, que eu não tenho mais palavras. Só bonito.
Bernardo, 6 anos
Bernardo news
dei hoje um abraço na vovó bem demorado, não queria largar. depois, ela tirou o relógio e colocou no meu ouvido porque adoro o tic-tac dele. gosto também de correr pela casa com o iphone dela tocando Aldir Blanc e sambinhas. Mas ela sempre me pega, me beija, me agarra e dou gargalhadas.
na casa de minha vó costumo bater nas tampas de panela com uma colher de pau. ela me prestigia. gosto também quando ela arranha o violão fazendo sons grandes. ela me prometeu uma bateria. acho que vou adorar!
vovó comprou balas de gelatina em formato de urso. tem que dar escondido da babá, que vai contar pro papai, mas elas são deliciosas depois do almoço, depois da sobremesa, depois do suco. tem quatro cores de ursos que ficam dançando na minha boca até resolverem dormir na minha barriga. vovó disse que quando eu durmo os ursos ficam na minha cama comigo. legal dormir com ursos coloridos de gelatina. papai não sabe a delicia que é.
Aratoca
Há trinta anos, de pés no chão, boca suja, cabelos cheios de sal. Corados, mantidos a arroz e feijão. A chácara em Ubatuba aonde corria um rio limpo atrás era no caminho do Horto Florestal. Da praia, longe, para o mato cheio de saguis e abacateiros. Nada na geladeira a não ser saborosas e diárias melancias compradas na beira da estrada. Ou jacas. Esse brincar sem fim. Eles mesmos se incumbiam das regras, esconderijos, contagens, desenhos na areia, pedras, peixes. Hora de dormir, cedo, de barriga cheia, exaustos. Nós, pais novos, novos adultos, estávamos ouvindo algo bem brasileiro em fita. Cozinhávamos, ríamos, namorávamos. Estávamos coberto de certezas de nossos amores cúmplices. Corpos banhados de sol, sal pelo corpo. Éramos também, meninos.
12 julho 2019
João desce da cadeirinha do carro fazendo festa.
Afinal estamos em São Bento, faz frio e ele radiante, viajando comigo. Céu de estrelas, limpo, caí a tarde e lá está a lua imensa.
Vó, quem mordeu o pedaço da lua?
Avô
Num estalo pela manhã necessito saber quem foram aqueles antes de mim e passo a vasculhar os baús e a fazer a parca memória trabalhar, mergulhando nos oitenta por cento de moléculas de água de que sou feita. Nessas bolhas flutuantes de líquido e massa amorfa, qualquer coisa pulsa pedindo - verifique se aqueles olhos do farmacêutico da cidade do Porto, nascido seu bisavô, colarinho duro com uma fita preta na volta, suíças negras, tez impressa no preto e branco, são olhos reconhecíveis em seu filho. Verifico assombrada, no espelho, que os olhos são meus. Assim será com meu neto. Vasculhará na minha ausência a foto digital ampliada até o último pixel, para se certificar que meus olhos são seus.
Piscina
Gab tem um ano e três meses, nove vividos na pandemia. Na piscina infantil da Aldeia do Sahy ele corre para as crianças pequenas e pega, e abraça, e beija de qualquer jeito. Dá ciao com as mãos, às vezes as duas, para as pessoas com ou sem máscara. Não temos noção do que tudo isso poderá significar.
Mas, Gab anda rindo à toa, corre pela praia às seis da manhã. Livre. Corre sempre em direção ao mar.
Pandemia 2020
Lápis
O lápis na mão. Tenho as árvores. Estante de livros repleta de folhas de papel. A estrutura da mesa de trabalho, a bancada do artista. Pés de cama do amor, o banco na sombra. Elas se foram para que espaços fossem abertos para a civilização agrícola. Se foram para cobrir as casas, encher o mundo de portas, pontes sobre os rios, barcos e naus. Lápis na mão, tenho a árvore.
@reginadias
Vo-Vóou
Quando dizem vo-vóou num sábado eu fico com Ôou chamado até segunda-feira. Vuo-vuôô serve também. Ouço um Oo que termina em um som impossível de grafar. Queria deixar para sempre esse primeiro chamado que não pede, não avisa, não dialoga. É só um olhar trocado, e essa palavrinha que abrange nossa intimidade no Tempo. Vovôuo-ouoo
Bento, pai do Bernardo, laçou a corda na mangueira, serrou a tábua até ficar com formato de banco. Deixou feito para ele, para todos, para sempre, um balanço.
Infância a gente guarda a sete chaves.
Taxman
Falei, Bê, que a gente tinha que ouvir outras músicas. A gente ouvia sempre as mesmas. É vó, agora só quero o Taxman. Põe de novo? Sim, mas sabe, vó, queria emprestado o CD. Hum, Bê, sou ciumenta porque esse eu comprei quando saíram os digitais. Você tem ciúmes dos spinners? Tenho. Então, é igual. Eu vou tomar cuidado, muito, vó. É, vou conseguir te emprestar mas vou pedir de volta rapidinho. Também posso copiar, não é legal? É. Mas, vó, esse desenho da capa é muito lindo e na cópia você não vai conseguir, né?
Quero ouvir Taxman olhando a capa.
Férias
Durmo sob a lua embargada. Volto para a cidade de olhos marejados. Acabaram-se os dias de praia. Acabou. Corri com meus bebes pela praia e os vi descobrindo a água salgada - pela boca e pelos olhos. Mar sem defeitos, água de ver peixes, conchas divertidas, rosas, bochechas cheias do brilho do dia. Exaustão de um dia de verão no mar. Sono pesado, barriga cheia. Milhares de beijos por minuto. Milhares de abraços por segundo. Eternizamos nossas histórias. Imagens que se impregnaram para sempre nas lentes finas de ver - de João, de Léo, de Bê.
Na cozinha
Léo subiu no banco largo perto da pia. Não queria que ficasse no outro, estreito e alto com medo dele cair. Quando fui buscar o adequado, É pizado pra você, vovó. Ele tem três anos, loiro e lindo. Não é uma criança comum nos traços porque vem nele aquela coisa monumental de misturas entre portugueses, austríacos, russos, uma bisa Orlandi, umas bisas mulatas de Recife. Seus óculos são redondos e charmosos e dão à ele um ar de gibi, de Tintin. Vou fazer uma sopa de feijão para você. Oba! Quero ajudá. Ajudou, perguntando tudo. Notei como se cuida com o quente, se equilibra tranquilo, gira o corpo curioso sem cair. Quer mexer e passar o feijão na peneira com força. Sentamos juntos à mesa e deixou que eu desse de colher cada pedacinho que trituramos do espaguete para ficar bem pequenininho. Hummm. Tá bom de sal? Sim, sim. Na hora de ir embora o pai ajeitava a meia com a sandália, quando ele foi se despedir. Você fica sozinha, vovó? E não fica tiste?
Filme
Às duas e meia da manhã você deixa que suas sinapses trabalhem para que faça sentido editar um longa-metragem em tempo recorde e ver dois de seus netos nascerem em menos de um mês. O longa é um bebê nas suas mãos. Quer vê-lo sair andando, ter atributos de beleza e transmitir inúmeras sensações apenas com sua capacidade de articular imagens que façam enlaçar um que vê e ouve. Você quer ver seu neto fluir pela vida, se enlaçando nas pessoas e sendo amado, ser forte e sobreviver. Antes das ideologias, antes do narcisismo, antes de você ser gente, já deseja isso para os seus.
Que meu neto tenha luz de fotógrafo, texto de narrador e jeito musical. Que tenha aura de mágico, pareça pertencer a uma trupe de circo mambembe. Que tenha algo chapliniano, felliniano e dê sorrisos largos por isso. Eis o filme.
Onça
Sentamos para ver se nos livros havia a ilustração de onça para copiarmos em papel. Bernardo encontrou a onça. Tentou copiar em várias folhas, sem ter medo do traço ou de corrigir o que considerou inexato. Terminar a onça ficou para depois. Três dos livros foram escritos por índios e contam histórias de animais, caça, rios, pássaros, como funcionam as aldeias. Com desenhos de crianças índias. Seus olhos arregalados quando contei como tiveram que se reorganizar em reservas. O valor da terra como um Deus, o valor do rio como um Deus, o Bem da floresta. O grande final foi encontrar um glossário simples em Tupi-Guarani, descobrindo quantas palavras que eram deles, nasceram deles e se tornaram nossas - como os rios e as florestas. Somos brasileiros, Bernardo.
Todos nós.
Léo dorme
Ri tanto pra mim que fico com dó de fazer inalação. Mas faço como uma guardiã, porque vigio, amo, e quero livre de dodói. Ele dorme de braços para cima, aquela postura de quem não precisa se defender de nada. Peito aberto, sereno. Meu Léo é muito forte, compacto, um tourinho. Muito calor para bebês, muito barulho para bebês, ar seco demais e avó demais para esse bebê.
@reginadias
Atômica
Você faz sessenta anos e sabe que não vai mais tentar ajudar seu filho a entrar no mar num caiaque. Você nunca mais vai pegar jacaré nem entrar em mar virado na ressaca só para sentir aquele empurrão que rala tudo na areia. Nunca mais vai andar de bicicleta por Campos do Jordão do centrinho até a Vila Inglesa, ida e volta, grávida. Jogar quatro horas de tênis sem fazer xixi - essa lembrança boa dos quatorze. Mas hoje aconteceu um fato sobre-humano comigo. Só há gado na Meia Ponte dos raros locatários, às vezes de um vizinho. Quem loca agora um pedacinho é um amigo. Desci para ver bezerrinhos que acabaram de nascer. Não havia como entrar no curral porque as possíveis porteiras estavam segurando vacas nelore gigantes e furiosas por estarem apartadas de seus bebês. Não tem como entrar, cumadinha! De chapéu e cajado, calça branca, calor abrasador, me surpreendi escalando cinco ou seis lances de tábuas, abaixei a cabeça para não ralar na viga do embarcador e desci do lado seguro no corredor da balança. Vó? como você entrou, vó?
Cochilo
Acabei sonhando com meus três filhos brincando com meus três netos. Só eu mesma dizendo aquelas palavras chatas como cuidado! Devagar! Os três homens eram os mais meninos os que propunham todas as palhaçadas. Ríamos. Mas eu era o freio, a adulta, cuidado! Devagar! Eram vida, energia, invenção, coisa sem tempo nem lugar. Era um quarto qualquer, como numa festa onde a gente se isola mas há ruídos e barulhos, risos lá longe. Rolavam, projetavam imagens na parede branca, se cutucavam. Me esqueço frequentemente dos sonhos, mas esse ficou, nascido de um cochilo rápido entre folhas do jornal previsível, com aqueles homens e mulheres horríveis que fazem as leis, que nos enganam, abusam do poder.
Cochilei, e deveria ser assim. Meninos felizes.
Alexa
Papai, você não acredita! O que, Léo? Eu falei pro Gab fechar o olho e ele fechou.
Falei para ele piscar e ele piscou. Que legal, meu amor!
Papai, o Gab tem Alexa! O Gab tem Alexa!
(sai correndo pela sala)
Pipoca
Vamô pra cozinha! Vou fazer pipoca!
Obaaaaa, vamôooo.
Saem os dois de três anos na corrida.
Pego a panela e a pipoca. Me viro.
Léo apertando a bochecha do João e sacudindo.
A vó é minha e a pipoca é minha, Juão.
Onze anos
Deve estar sentindo uma revolução de hormônios. Mas não sabendo sequer nomear. Bernardo é agora um meninão em busca de respostas. Cuido do nosso almoço semanal para entender e estar perto caso a avalanche do mundo esteja ameaçando seu sono. Que pretensão a minha! se seu olhar mudou e salta na busca interminável do sentido de tudo. Quero estar ao seu lado. Tomara que consiga dar sentido ao enfrentamento que virá.
@desireeturcheto
E que os Deuses te acolham. Meu amor.
Move a casa
Movem-se dentro dela tantos meus. Movem-se em correria. Entopem a pia de louça, potes, copos vazios. Abrem portas, vigiam meninos, coisas assam no forno enquanto, como nave, singramos no Tempo. Flutuamos pela cidade – e essa prancha de piso e teto voa indiscriminadamente pela Via Láctea. Depois dos Hubbles diria que a Via é líquida, sem hora, difusa, vaga, ilegível. É nessa massa de Matemáticas, como um pilar, que viajamos com as travessas de massa, frangos, até se assentarem na mesa. Manchada de vermelho e vinho a toalha de linho na segunda-feira afundará no balde. Nosso lixo é separado, como bons viajantes que somos. A galáxia continua no etéreo. Tonico notícia que se muda na semana. Meu caçula sai de casa. Tem o cochilo dos bebês, tem o cochilo debaixo da gritaria dos gols na tv. E vamos nós e nossas diferenças, nossas mal resolvidas questões, nosso amor apertado. Abraços que ficam no corpo! e quando se vão, a casa de debruça, se recompõe, e autogerida, aguarda clara e grande, o momento em que renascerá num outro domingo qualquer.
Olimpíada
Léo chegou da escola num dia de garoa fina. Tem só um ano, não vivemos tão juntos, mas ele se atira de coração nesse peito de avó e tira o mundo das minhas costas. Vou flutuar! Depois ficamos a sós porque os pais vão chegar mais tarde. Monto blocos sólidos arremessados à distância como se estivéssemos treinando para os jogos olímpicos. Seguro suas duas mãozinhas daquele jeito clássico de quem quer ajuda para andar e ele se solta de uma mesinha para uma cadeira, experimentando saltos ornamentais. Logo acomoda no sofá entre meu corpo e meu braço, entregue à mim como um bichinho. Coça os olhos. Hora da mãe chegar esbaforida. Agora é nado dessincronizado e alagamento de banheiro. E beijo na avó que vai para casa de planador.
Vovórijina
Deitou no chão, olhou para a mãe que esperava na porta – vou ficar com a vovórijina. A mãe cansada com a mudança que fará em breve para a Alemanha, olhou para mim. Silêncio. Virei para ele que me encarou do chão. Léo, amanhã você volta, vai ficar comigo de novo. Virou de bruços. Vovórijina... Senhor! Meu coração estraçalhado por esse menino bonitinho e cheio de determinação. E não era apenas mimo e apenas dengo. Era real. Também estraçalhados estavam meu ombro, quadril, pescoço e braços. Dilema rodriguiano. Peguei no colo determinada e dividida aquele serzinho esperto e sedutor e beijei o quê meu beijo alcançou. Logo estava no elevador com a mãe. Vovórijina, vovórijina.... Fechei a porta como num romance. As costas pregadas na porta. Como deixei ir assim meu grande amor?
Descanse em paz, João Gilberto
Você ficou tiste, vó. Fiquei Léo, porque ele era um músico muito bom. Depois vou tocar umas músicas dele para você.
Mas, vovó, não fica tiste porque você tem a música dele.
Samba de Maria Luiza
João cantarola o dia todo. Lida com a timidez soltando a voz no cadeirão do restaurante. O pai tenta controlar, mas acho que nasceu com aquela estrela. Ou talvez não passe disso, seja momentâneo. O menino de três anos só canta! Enquanto eram canções do Palavra Cantada, as previsíveis de seu mundo, não chamava a atenção. Normal, gosta. Canta alto como um desatino de criança, desses que nos apaixonam e seduzem. Mas Samba de Maria Luiza? Letra inteira sem erros? Introdução e arranjo do Tom? E no final da frase musical onde faz a nota do piano e encerra a fala de novo? com a fala do maestro ? não fala que grava?
Baqueta
Juco corre pela casa da vovó. Vovó corre atrás sem sucesso. Ele vai reto como uma flecha, a cabeça entorta trinta graus raspaaannnndoooo na quina da porta. João acelera. Está com a baqueta da bateria na mão. Vovó se despera. Finalmente ele chega perto, muito peeeeerrrto do prato da bateria. Vovó dá um carrinho sen-sa-cio-naaallll, alcançando João. Mas não a tempo de impedir que bata com energia no prato. Golaço! do João Pimpão.
Fé
Meninos nascidos sob o mando do Natal aguardam consagração. Daqueles que desafiam o poder, tornam-se então, soldados de transformações. Sob o flutuante portal, abrigam a legião dos desesperados, dos incultos, daqueles que remam rio baixo a trabalhar para o Rei. Louvam e andam em procissão entre cânticos entoados em lembranças da cruz. Há dor e lamento, risos, abraços, homens mulheres bebendo do cálice. Da vida, a força da fé.
Cuidem
As letras empilhadas aqui do meu lado em cadernos, cadernos que montei para o interesse do momento. Anotei quase tudo. Das aulas de desenho às aulas de Cabala. Cuidem. Podem picar e reciclar e tornar novamente papel, porém, letras hebraicas não se podem rasgar, destruir. Levem-nas para um rabino. Uma só viagem, uma caixa somente e tudo que lembra meu pai, meu avô, estará em lugar seguro. Não sei de quê, mas será preciso observar isso. E agradeço.
Fiquem com todo o sol que pude tomar, onde nadei, tomei caixote, abracei no sal. Há um lugar destinado aos meus livros: as favelas no Rio. Existem projetos sérios e atuantes para que eles se aquietem por lá. Cuidado, peço por eles. Quer dizer, há dois deles que podem ir comigo na minha caixa. Fernando Pessoa e Fragmentos. Estão tão gastos e puídos que melhor será terem um enterro simples. Tenho roupas batidas, roupas que farão diferença para quem vive na rua. Nada extraordinário precisa ser feito. Será rápido. Deem tudo.
Deixei pés de abacates. Darão mais e mais frutos, mas presenteiem quem os plantou, quem realmente cuida de cada folha: Marcelo. Vendam a casa e deixem os abacates para ele. Talvez consiga sair da pobreza e tornar-se um fruteiro feliz, bolso ancho, para cuidar de sua filha que nasceu com probleminhas de motricidade. Abacates poderão pagar o tratamento de Luisa. Espero.
Com carinho, peço, recolham as fotos de tudo construído. As casas que já se foram. As paredes que ergui foram mais estruturais em mim do que vê-las prontas e pintadas. Tudo passará, não se entristeçam. Bem rápido irão comentar minhas intragáveis manias. Certamente os netos se lembrarão dos morcegos tenebrosos que fazia em papelão, capas de super-homem com meus lenços e cangas e o rock que ensinei dividindo a beatlemania quase patológica.
Tive a graça de observar os redemoinhos nos cabelos deles todos. Todas aquelas ramificações girando para um mesmo lado. Somos esses mesmos.
Fica a mesa posta, fica a terra lavrada, ficam as histórias escritas e o meu amor inabalável por vocês e por meus amigos. Não encontrarei um deus, não tem inferno. Não reencontrarei tanta gente que amei, não estarei quando chegarem daqui a muito, muito. Não se preocupem com o monóxido de carbono. Um meteoro pode exterminar tudo. Recomeçaremos como amebas. Se estiver enganada talvez eu peça para o papai do céu para voltar um cachorro. Pedirei também uma casa com donos que me respeitem. E no quintal, uma fresta de sol.
5780
Ontem na mesa do almoço, a família que criei. Criar seria o verbo? Variadas religiões, várias crenças, ateus. Como filha de pai judeu, pedi a uma nora uma prece pela chegada de Gabriel. Agradecemos tudo. De recebê-lo com alegria até a nossa mesa farta, fruto do trabalho de muitos. Nunca havia feito. Nunca esquecerei.
@desireeturcheto
Barcelona, 2016
Verdade, vó, que você vai pra Barcelona? Vou querido. Na minha escola tô aprendendo Gaudí. Adoro o Gaudí. Num acredito, Be. Vou te mostrar uns livros lá em casa. Posso levar seu livro pra escola, vó? Pode, claro.
O quê você quer que eu traga dele para você? (silêncio). Vó, o que eu quero é impossível.
Por que impossível? Porque eu quero um autógrafo.
Pequena
Essa bebê solta num mundo de animais de floresta, percebidos como lontras. Alguém de coração lhe avise que são brinquedos feitos de cordões e retalhos. Para não morrer de susto. Se Deus estiver mesmo por aqui, entrou por debaixo da porta, na fresta do canto. Passou por sua caneta, pelo canal lacrimal, desandou.
Calma Senhor, ampare. Traga-a para o centro da roda dessa nossa pajelança, e que venha com seu escapulário. Traga essa criança iluminada para nossa manjedoura de cristal. Vamos derramar letras, cânticos, rezas, bênçãos e livros sobre suas mágoas mais doídas. As de hoje, as urgentes.
Traga-a para ser vestida em panos do Oriente, laranjas e azuis fortes, em sedas do Japão, panos tingidos no Marrocos da bagagem da mala vermelha. Depois banhá-la devagar com águas de papiro, verdes caldos de louros, transformá-la em alguém que dorme em seu doce esconderijo passageiro. Uma bolsa marsupial onde, exausta, possa se aquecer.
Ficaremos a assistir consumados pela energia vital de sua dura luta. Ficaremos guardando seu sono secular para que o último raio de sol esteja. E quando, depois de tudo, se erguer brilhante, roupas embaralhando vento em seu cabelo, saberemos que o Senhor, meu Deus! esteve e ouviu, veio e se sentou, cuidou e abençoou, lhe deu colo e hóstia. Saberemos que velamos seu sono de muito tempo, sono de sinos e tímpanos.
Ela se levantará ligeira como garota a colher lírios do campo. Durma e descanse pequena.
Estamos aqui, junto a você, brincando de Deus.
Piado
Tinha me esquecido do silêncio do primeiro dia de sertão. O ouvido fica com um zumbido de vazio. Falta a cidade com sua frequência xxxxxx. Estranhamento. Ouço uma bicharada noturna. O quê são? Cigarras nunca vi. Grilos, talvez? Mas tem mais. Muitos outros que não imagino quem.
Maritacas juramentadas andam pelo forro. Cerquei, bloqueei com cimento, vedei as frestas no telhado. Nada. Entraram. E pelo visto enganando a Marlene, que jurou não haver nenhuma. E são filhotes com uma mãe pesada. Me assusto porque parece alguém no quarto ao lado. E estou só. Passarinho pia de noite? O quê ouço não é coruja!
Falta intimidade do nascido aqui. Entre as toras de aroeira.
Luisa
Luiza de Dadá sabe tudo sobre bonecas de pano.
Desde menina é assim quando sentiu sair de suas mãos a primeira dos retalhos.
Luiza de Dadá é uma negra pequenina e delicada,
e assim saíam suas bonecas. Esculturas pequenas e coloridas de museu nenhum que não seja infância.
Luiza de Dadá é elegante com seus anos nos cabelos de prata brilhante.
Luiza agora não enxerga muito bem para costurar, tecer ou fiar. Esses cabelos ajeitados, presos acima, mãos magras e dedos da pianista, Luiza quase não vê.
Saíram suas bonecas percorrendo mundo.
Linho saindo na ponta da mão.
Aranha bela. Tecelã dos escravos.
Cabecinhas de lã negra, chita e chapéu de Sinhá,
fitas na cintura e sapatos vermelhinhos.
Eternas como Luiza.
Luiza de Dadá, que quase não vê.
Quadrinhas pro Bernardo
Vovô iria plantar Mil frutas pro Bernardo. Compraria um cavalinho branco E esculpiria um cajado.
Passearia na mata Caçula Beberia água da mina. Bernardo teria o mais belo Chapéu da chapelaria.
Talvez cozinhasse pro bebê A mais fina iguaria. Talvez só toletes de cana Descascados com um bom dia.
Subiriam morro acima Com embornal, cantil e tina Botina de couro firme Com passadas de valentia.
No alto do morro diria, Apontando a serra fina, Bernardo, vovô plantou pra você Manga doce e simpatia.
Com essas quadras quero crer Que junto de você todos os dias, Vovô está na luz da janela Espreitando por um dia.
Tartaruga
Você sai de onde nasceu e é bom.
Você reclama dela, mas volta.
Sua cidade, vilipendiada,
ainda é sua cidade.
E você volta como as tartarugas.
@desenho bentodias
O espaço no papel é também desenho. É assim mesmo a Poesia